Desenho-Geovania Ramos

A expressão “ anjo caído”, ao mesmo tempo que evocava ideias do divino, lembrava da possibilidade da queda.

Nessa história o anjo acordou num sábado e, como de costume, espiou sua protegida trocar de pijama na frente do espelho. Ela gostava de colocar uma peça de algodão branca, desembaraçar os cabelos com os dedos e amarrá-los descontraidamente. Tinha um nariz delicado, uma pele branca. Seus cabelos frisados davam a ela ares de princesa medieval e-longe das batalhas- o anjo tratava de cuidar do seu destino. Ela era sutilmente silenciosa. Silenciava quando estava contemplando as coisas da vida. Em outros momentos ela falava e cantava. O anjo aproveitava esse momento para dar uma descansada, pois quando a moça  “hablava de sus cosas”, era porque estava bem. Naquela tarde já se ia o sol no horizonte da cidade onde ela morava. Ela estava inquieta em seu silêncio, naquele dia cheio de discórdia. Não fumava, mas se fumasse teria acabado com todos cigarros. Roeu as unhas, tentou desenhar, pintar, tecer umas linhas, mas nada tirava dela aquele ruído interno. O anjo desde cedo estava às pressas em torno dela. Já tinha ido aos céus consultar o oráculo, já tinha ido também à horta, buscar um chá de Santa Maria. Já tinha ido atrás de algum ingrediente que  pudesse espalhar na aura da moça para tirar-lhe daquela angústia.

Naquela noite, demasiadamente raivosa e angustiada ela desaguou suas coisas não ditas. Levantou do sofá e, em direção ao homem que amava, despejou nele toda densidade contida no seu silêncio. Assustado e austero, ele ergueu a voz arregalando seus olhos azuis e,  sem seu habitual sorriso, a enfrentou com a face áspera. Aquele era um momento de tempestade. Ela descarregou nele seus raios, trovões, desafiando  aquele  homem a despedir-se de amá-la. Após rompantes de ambos os lados, ele afastou-se, saindo porta afora. Ela sem forças, não o seguiu. Ele precisava calar até que a maré voltasse à calma.

Quando ele saiu ela calou. Reparou que suas águas tinham se agitado além do desejável. Temeu que ele fosse embora para sempre. Nessa hora seu corpo exausto a lembrou que era frágil. Nessa hora olhou em torno de si e reparou nos filtros de sonho que fazia e desejou passar por ali… Depois olhou para a porta com espera. Lembrou que mesmo as grandes embarcações naufragam. Sentiu medo que o homem que amava não voltasse.

Enquanto isso o anjo, já tonto com a tormenta, foi tentar um último voo em torno da moça. Ele tropeça no lustre da sala e cai. Bem em frente a uma mesinha, fica caído com as asas arranhadas. Olha em torno de si e repara um maço de cigarros abandonado. Percebe à sua direita uma garrafa de whisky. Olha a moça quieta quase adormecida. Sem resistir muito, fuma todos os cigarros, bebe a garrafa de whisky e desmaia de cansado. E ficam ali- caídos- os dois.

O homem retorna.  Ao abrir a porta repara na calmaria típica de manhã pós- tempestade.  Acaricia os cabelos frisados daquela que era sua particular princesa medieval, repara na falta dos cigarros na carteira e estranha a garrafa vazia. Observa ao redor e percebe que sobre a mesinha tem um anjo caído, com cigarros amanhecidos nos dedos e a garrafa na mão. Reconhece a dádiva de ver um anjo. Sabia que não há nada de comum em econtrar um no anjo da guarda, mesmo que caído. Poder vê-lo, causava-lhe um encantamento sutil. Extasiado com tamanha arte, o homem tira do bolso uma máquina e arranca do anjo um retrato. Guarda a foto e fica ali mesmo, deitado ao lado de sua moça. Ele sabia que no dia seguinte ela acordaria linda, amarraria os cabelos, colocaria sua camiseta de algodão branca e iria até a janela olhar o tempo. O homem só desejou que aquela chuva passasse como um mar abraçado com o horizonte. Ele mesmo a guardou até o amanhecer do dia.

Conta a história, que o retrato ficou guardado em seu bolso. Contam que o homem-de vez em quando- ainda olha o retrato do anjo,

… só para lembrar das coisas do divino.

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