Eganoso EU “sujeito” Brasileiro

Bárbara Trelha

Sujeitar-se às barbáries cotidianas e abusos tantos têm sido uma realidade imposta a nós, maior parte dos ‘sujeitos’ (do) ao Brasil.

 

O sonho americano nos ronda sem que ele seja sequer nosso. Não só ele mas as aspirações eurocêntricas de passar férias em Paris e ir à uma igreja em Roma. Essas vontades importadas não sei de quem estão espalhadas por toda parte. Estão, por exemplo, no pé do garoto da favela, representadas no símbolo da Nike do tênis fabricado na China trazido via fronteira do Paraguai para embelezar um pé na base do ‘falsifics ‘, remediando assim a necessidade do cidadão de TER- embora saibamos que no cerne da sua compra deseja apenas SER. E o queremos ser?

Lembrei agora, como que cena de filme em que entra trilha sonora,  da canção “SOMOS QUEM PODEMOS SER”. Nela, escuto ” A vida imita o vídeo /Garotos inventam um novo inglês/ Vivendo num país sedento/ Um momento de embriaguez”.

E nessa coisa de somos quem podemos ser eu começo o objetivo desse texto:

REFLETIR SOBRE AS REAIS FRONTEIRAS CULTURAIS

Brasil X Colômbia começa, na história de todo brasileiro comum, num jogo de futebol. Não somos instruídos a saber mais sobre a Colômbia, que sua geográfica demarcação fronteiriça no mapa. Não há espaço no nosso currículo para sabermos sobre a ‘Cultura Andina’ ou outra similar  porque precisamos decorar como o brasil foi descoberto, sobre o que é a União Européia e sobre as datas todas durante a Revolução Russa. Sabemos sobre peculiaridades de Napoleão Bonaparte mas não sabemos  o peculiar detalhe que o Cajon (tão usado na música Hispânica) é de origem Peruana.

Comecei meu contato com a cultura latino americana pela música. Na vontade ter ter folga mental de teorias musicais que analisam repertórios clássicos ou de estudar a música popular brasileira, resolvi por dois anos consecutivos, estudar a música Latina. Primeiro a música Boliviana e depois a da Venezuela. Algumas descobertas extraordinárias sobre esses lugares como por exemplo, a existência de um carnaval diferente, cheio de sonoridades; a divisão ternária da música venezuelana e suas melodias com marcações rítmicas difíceis de serem cantadas, sobre a delicadeza e forma respeitosa de entender a cultura e produção de flautas feitas pelos artesãos andinos, protegidas por lei na Bolívia como Patrimônio Cultural.  Esbarrei com uma riqueza cultural nada prepotente, nada pobre, muito bela. Isso não desfez meu encanto com o velho continente e suas histórias medievais, mas me acordou para um logo ali… antes do oceano.

Depois dos jogos de futebol e dos dois cursos, um garoto Colombiano bonito  e simpático num Hostel em Bota fogo no Rio de Janeiro, me disse que Brasil e a Colômbia se pareciam. Não vi nele um garoto latino-americano, mas um jovem como eu. Já eu, estranhamente, não me sentia como ele, uma jovem garota latino-americana.

Ainda no curso sobre música Boliviana,  estudei que na Bolívia, na época da colonização, houve um movimento de música barroca que incorporou aspectos sonoro-musicais locais. Eram missas católicas registradas como de autoria de padres europeus, executadas com tambores indígenas. Tudo soando junto às estruturas  operísticas barrocas nos moldes clássicos europeus. Nessa escuta, uma harmonia singular e alguns paradigmas sonoros e culturais sendo instaurados na minha curiosidade.

Mas essa semana fui invadida pela Colômbia!  Não foi em nenhum curso de música Colombiana. Foi um brasileiro que me inseriu Bogotá no campo de visão e resultou nesse texto cheio de referências e reflexões.

Tudo começou quando eu liguei para na Assistência de um site, para saber detalhes sobre o domínio que eu havia comprado. Sobre o domínio deste site intitulado “ensaiosliterarios.com”.

Na minha falta de habilidade com as tecnologias, sempre ligo e tento “ouvir via voz” a informação da qual preciso. Liguei em um telefone fixo com código  (011).  Na conversa, um atendente de call center comum começou a me dar algumas instruções sobre redefinição de senha. Tranquilo, esperava minha inábil cotidiana lentidão com as tecnologias. No meio das tentativas, comentei a ele o quando eu odiava ter que fazer e refazer senhas. O quanto não gostava de tecnologias e ele ria descontraído da minha espontânea forma de falar.  Resolvi furar o protocolo e perguntar de onde ele falava. Em geral pelo sotaque eu identifico a região de onde a pessoa é, mas ali não dava para saber. O que me chamou atenção, era sua forma leve de me atender. Acostumada com tratamento semi robótico e verbetes prontos típicos de atendentes de call center de empresas de telefonia,  fiquei curiosa e perguntei:

-De onde vocë fala?

Ele respondeu prontamente me gerando surpresa:

-De Bogotá!

-Bogotá, Colômbia? – Pergunto eu ainda ” encafifada” com a resposta.

-Sim, falo da Colômbia.

Daí em diante foi impossível não conversarmos mais sobre outras coisas. Quando ele pediu que eu testasse o site para verificar se estava ativo, aproveitei e divulguei a ele meus textos contando o motivo de  ter criado esse espaço.  Também contei a ele sobre a origem de alguns escritos meus publicados no site como ” O Anjo Caído”. Resumi a ele o que do texto era ficcional, e o que do texto era verdade.  Expliquei a ele que o meu conto ” Chuva de Brinquedo” era uma narração auto-biográfica e nada tinha de ficção. Ele foi identificando os textos e parecendo agradar-se disso. Me contou sobre a calma que é morar em Bogotá. Que há segurança e tranquilidade. Falou de como a cidade gira em torno dos cachorros, que as pessoas e seus cães passeiam o tempo todo. Ao fim da gostosa conversa esqueci apenas de perguntar seu nome, mas comentei a ele que talvez escrevesse um texto  sobre nosso encontro.

Antes de iniciar essa escrita, e a narração desse inusitado encontro via call center, senti que precisava ler algo mais sobre Bogotá e cães, Colômbia e  Brasil, algo que me desse uma dimensão mais real desses legares e imagens novas que eu criava na mente enquanto conversava com o atendente. Na minha breve pesquisa, encontrei muita coisa falando sobre drogas, atividade de tráfico na fronteira, mas nada das coisas que eu queria saber: O que de comum esses lugares possuem.

Então em meio ha várias leituras ( um luxo de pré-férias), eu esbarrei em um texto em espanhol muito interessante. Separei um pedaço dele pra ilustrar esse texto,  “roubei” dele uma imagem da Colômbia que gostei, e acrescento por fim a música que me assaltou o instante enquanto fazia essa escrita. Fico por aqui compartilhando que …

                  O inusitado nos atordoa, assalta e nutre o cotidiano,                                               

                     desde que a gente esteja aberto para ele.                                  

Se somente lermos revistas comuns e assistirmos programas formatados de televisão, vamos sempre imaginar lugares não-lugares, pessoas não-reais, sujeitos não-sujeitos e cultura não-cultura. E apesar de mais epistemológico e poético que eu, Sicerone ( autor do artigo abaixo),  na excelente revista “Reflexiones Marginales” ( ISSN 2007-8501), discorre muito mais a fundo algumas questões do sujeito em seu lugar e e em seu não-lugar, do que eu.

Vale a leitura mais do  que do meu texto ensaístico, metido a jornalístico.

Segue o trecho, a referência e uma canção para adornar essas reflexões pré-férias:

” El problema surge cuando queremos reconocer qué sujeto es el que debería llevar a cabo tal empresa revolucionaria. ¿Será el proletariado como expresión de la negatividad del capital en su concepción fenomenológica? ¿Será una multiplicidad de sujetos que compartan la marginalidad? Creemos que hay que suplantar el concepto de sujeto, el cual trae consigo una concepción metafísica del mismo, es decir, se le otorga una cualidad a-histórica y des-contextualizada. Por ello, suplantamos el concepto de sujeto por el de cuerpo, ya que es el cuerpo el elemento que permite definir la ocupación de espacios en la vida social. Son los cuerpos los que bailan, los que se mueven, los que mueren, los que nacen, los que corren, los que nadan, los que sufren, los que se someten a las barbaridades de la vida en la sociedad capitalista, los que fueron sometidos y traídos en barcos desde otro continente para suplantar a los indios que no resistían la barbarie colonizadora de la voluntad de poder que exterminaba en aras de alimentar el monstruo del capitalismo naciente, manchado de rojo sangre por el accionar de los conquistadores que justificaban las matanzas en la creencia de un Dios todopoderoso, pero blanco y europeo, como europeo lo fue Adán y Eva.” ( DANIEL SICERONE)

Texto na íntegra em:

Posibilidades y emergencia de una izquierda libertaria-dionisíaca en América Latina

Somos quem podemos Ser

Engenheiros do Hawaii


Um dia me disseram
Que as nuvens não eram de algodão
Um dia me disseram
Que os ventos às vezes erram a direção
E tudo ficou tão claro
Um intervalo na escuridão
Uma estrela de brilho raro
Um disparo para um coraçãoA vida imita o vídeo
Garotos inventam um novo inglês
Vivendo num país sedento
Um momento de embriaguez

Somos quem podemos ser
Sonhos que podemos ter

Um dia me disseram
Quem eram os donos da situação
Sem querer eles me deram
As chaves que abrem esta prisão
E tudo ficou tão claro
O que era raro ficou comum
Como um dia depois do outro
Como um dia, um dia comum

A vida imita o vídeo
Garotos inventam um novo inglês
Vivendo num país sedento
Um momento de embriaguez

Somos quem podemos ser
Sonhos que podemos ter

Um dia me disseram
Que as nuvens não eram de algodão
Sem querer eles me deram
As chaves que abrem essa prisão

Quem ocupa o trono tem culpa
Quem oculta o crime também
Quem duvida da vida tem culpa
Quem evita a dúvida também tem

Somos quem podemos ser
Sonhos que podemos ter”

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