I Parque Barigui

 

Se não fosse o quase, a gente não teria decidido, juntos, perguntar ao seu Aurélio o que ouvia no seu celular enquanto olhava o horizonte do parque, sentado em um banco de madeira. Eu e Matheus nos conhecemos pessoalmente naquele dia. Escolhemos o mais importante parque da cidade.  Uma tarde muito ensolarada e uma meta: Provocar um encontro.

Eu e Matheus sempre nos confrontamos com pessoas e suas histórias. Não era nenhuma experiência peculiar na nossa existência visto que contadores de causos existem em todos cantos e seus interlocutores também. O que havia de extraordinário naquela tarde era escolhermos um local para provocar um encontro com alguém aleatório. Como provocar o encontro, era para nós uma incógnita. Permanecemos também incógnitos até sentarmos nos degraus de uma escada e vermos seu Aurélio, com fones de ouvido, sentado em um banco de madeira. O que nos fazia diferentes de coletores de histórias, antropólogos, jornalistas ou similar, era um compromisso sutil e semi-místico de deixar fluir um encontro de forma natural sem almejar nada objetivamente. O homem sentado em frente ao lago nos impulsionou. Foi assim, de forma natural, que perguntamos…

O que o senhor está escutando?

Rádio! Eu ouço sempre um programa evangélico.

Seu Aurélio não precisou muito para iniciar a contação de suas coisas e memórias. Poucas vezes eu e Matheus precisamos indagar algo. Depois de muita conversa e depois de sabermos que seu Aurélio morava sozinho em um albergue da prefeitura, que perdera contato total com a família e que ela, em determinado momento, o deixou de lado; depois de sabermos que havia tido esposa, amigos, casa, e que perdera muita coisa num puteiro induzido por amigos a gastação com farras e álcool, ocorreu perguntar:

Se o senhor pudesse desjar algo, um sonho… qual seria, hoje, seu sonho de vida?

Ahhh … Meu sonho é ser pipoqueiro. Ter meu carrinho de pipoca e vender, ganhar meu dinheiro. Não precisava muito. Só um algum dinheiro que eu pudesse ganhar com o carrinho todos os dias.

Nossa! O senhor já trabalhou com isso, gosta de fazer pipocas?

Não…não sei ainda.

O que seu Aurélio nos apresentava era algo simples: Um desejo bem delimitado.

As sua histórias eram cheias de acontecimentos do passado e alguns recentes. Mas talvez de tudo que seu Aurélio tenha nos contado, as suas tentativas de tirar a própria vida foram as coisas mais existencialmente comoventes. Não no sentido de despertar pena, mas no sentido da lógica que aplicava ao dizer que “se não fosse o quase…” ele não estaria aqui.  Se referiu a isso pois em todas tentativas algo o impediu. Uma vez foi a arma que não funcionou, outra vez alguém chegou. Isso sim nos lembrava que a lógica do “quase” também cabe na nossa vida. Pensamos nas vezes que  se não fosse o quase  tudo mudaria de rumo…

Era mesmo algo a se pensar permanentemente…

 Seguimos….

Protagonizando a aproximação de seu Aurélio com o objeto do seu desejo vital,  avistamos um carrinho de pipoca no parque  e propomos comprar um pacote de pipocas para ele. Aceitou com naturalidade. Caminhamos até o carrinho e logo a vendedora de pipocas contou-nos também um pouco de sua história. Depois de sabermos que a pipoqueira era uma mulher de quarenta e poucos anos  que aceitou a proposta incial de tocar o carrinho de pipocas apenas aos domingos visto que inicialmente o carrinho era apenas um pretexto para um traficante ter seu ponto nas proximidades do parque; depois de sabermos que ela não sabia fazer pipoca e que incialmente recusara a proposta e que – depois- pediu que alguém a ensinasse e enfrentou o aprendizado, e com trabalho, aos poucos foi conquistando o carrinho para si. Depois disso tudo, contamos a ela do sonho de seu Aurélio. Ela ficou visivelmente feliz em saber.  Olha com doçura para seu aurélio e sorri. Como quem serve ao amigo um copo de cerveja, ela olha para ele e oferece:

O senhor quer que eu o ensine a fazer pipoca? Venha! O senhor fará a próxima pipoca! Vou lhe mostrar como é fácil!

O inusitado encontro entre a mulher de meia idade e o senhor sem família aconteceu naturalmente e eu e meu amigo Matheus, percebendo a deixa para uma saída natural, apenas com um olhar, decidimos de forma não verbal, que era hora de seguirmos em frente para outro encontro…                                                                               

…e seguimos para a casa gigante do outro lado do parque.

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