Escute “Miau Clara Canta” em áudio!

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Conheça a voz de cada personagem…

OUÇA A VERSÃO EM ÁUDIO DO LIVRO !

( Uma proposta de acessibilidade à deficientes visuais e pessoas sem letramento)


Ficha técnica:


Música ‘Miau’: Bárbara Trelha, Arranjo e execução de violino– Davys E. Espíndola. Contrabaixo- ClóvisMartins Guitarra/Violão- Piero D. Nossol , Gravação: Estúdios Decibel, Revisão de áudio: Produsom, Vozes dos Personagens: Narradora– Ana Carolina M. Coan, Clara– Maria Eduarda Bras, Mãe de Clara– Bárbara Trelha, João– João Victor Gomes de Queiroz, Gato: Fabrício Sfredo, Diretora– Geovania Ramos, Túlio– kuro, Professora- Isadora Trelha Matias. Coro de Crianças: Alunos da EBM José Amaro Cordeiro (2017).

Geovania Ramos: Gravação de dublagem

Sonho

Falar de paixão não cabe mais nos tempos de agora. A juventude depois que passa leva embora os rompantes mas deixa algo no lugar. A capacidade de estar em sintonia fina com o outro e não com o desejo, a plenitude de amar de forma inocente e ainda erótica. A plenitude de doar-se sem perder-se e de aceitar sem ser invadido.

Outra noite tive um sonho…

“Um rapaz branco, olhos miúdos, chamado Noa,  me acordava no meio da noite, trêmulo de febre. Peguei meu termômetro de medir coração. Era uma febre de alta emoção, uma doença rara. Eu, médica recén formada e inexperiente, achei que devia apenas medicá-lo com um abraço. Ele, paciente confuso, optou por aceitar minha medicação. Não havia pernas firmes para fugir dali e tão pouco havia ânimo. Ele não movia o corpo. Sua estática face ante meus exames clínicos revelavam seu estado de amor contido. Havia ele, por muitos anos, colocado seu coração entre grades e nunca mais foi visitar. Isso foi a causa da alta emoção e da consequente febre.  Os prognósticos porém, no seu caso, eram os melhores. Primeiro porque o remédio indicado não trazia efeito colateral algum. Segundo porque logo que as chaves para controlar a tal doença, lhe fossem dadas, a febre sumiria. Em pouco tempo o rapaz estava recobrando os sentidos e sentiu-se amado ( medicado e em estado de cura). Em seguida o rapaz percebeu que podia agradecer o remédio e subitamente, brotoejas começaram a brotar em suas bochechas. Eram brotoejas de amor contido.  Ele rompe o silêncio: Se move e pede ao meu ouvido, causando-me arrepios, que as tais brotoejas fossem embora. Eu, médica, já formada no seu caso, toquei-lhe os lábios e apliquei-lhe um curativo com meus próprios lábios. As brotoejas sumiram.”

Tudo virou uma lenda na região. Quando há alguém doente de amor, conto esse sonho e digo que devemos sair por aí, experimentando algumas curas, certos de que o amor cura, e que abraçar além de curar, evitar a dor.

 

 

Um mar de Lágrimas

 

Ainda possuo alguma liberdade de ir e vir; tenho uma boa cama, lençóis macios para dormir e bom ânimo.

    Atravessar a fronteira do meu país foi mais fácil que pensei.

    Não falo da fronteira territorial mas da ideia de “vencer a fronteira”. Como uma espécie de guerrilheiro, me coloco à prova da coragem para atravessar o terrritório da cultura e da língua. Ratifiquei o que eu já sabia: Minha facilidade de me comunicar transcende o idioma e as diferenças culturais.

    Montevidéo possui uma arquitetura velha, cheia de oponência e beleza. As pessoas aqui me parecem mais ensimesmadas e é como se houvesse uma certa resignação usada pelas pessoas ao conversarem. O tom de voz  que escuto nas conversas que tento espionar é apenas o necessário para alcançar o interlocutor alvo, o que me frustra.

Comprei um livro infantil 

        Me identifiquei com o tema de um livro infantil que achei em uma livraria. Gostei da poética da história, dos desenhos…

Ao ler estranhei duas palavras que, à princípio, não encaixavam na sentença. “Pena” e “estrujar”. Eram temas chave para que eu entendesse o fim da narrativa, que era um tanto quanto lírica e metafórica . Resolvi perguntar ao vendedor de livros da livraria que ficava bem no meio do saguão do Teatro Solís. “Pena”, segundo ele seria uma espécie de tristeza misturada com saudade. Já ” estrujar”, esmagar e oprimir por dentro.  Além de entender a história me comovi com o singelo desfecho e comprei o referido livro por 440 pesos.

      Antes de entrar no vistoso teatro atrás de ingressos já esgotados e antes de encontrar o livro sobre o mar de lágrimas de Emma, passei por uma praça.  Havia um evento público, algo natural como uma batalha de rap no Brasil. Nesse evento, velhos e velhas dançavam tango como seus pares ou com quem quisesse dispor de uma dança descontraída. Deixei-me dançar. Dei-me a um senhor que me conduziu com de forma leve e eficiente. Ao sair da dança me direciono ao bonito teatro e tenho um encontro: Prólogo do livro que eu viria a comprar…

       O encontro

Uma mulher de meia idade, sem dentes com um cachecol amarelo me aborda na praça em frente ao teatro. Pede moedas para comer e dar comida ao seus filhos. Pede muitas vezes ao senhor ao meu lado e demora a olhar para mim. Após muitas recusas do senhor, ela olha para mim com olhos cheios de lágrimas. Eu, acostumada ao ritual de pedintes no Brasil, efetivo o o ato da recusa. Mas a mulher de meia idade e cachecol mantinha seus olhos grudados em mim e ocorreu-me oferecer-lhe algo.  Concomitante à minha intenção de não ignorá-la, um resto de consciência me dizia que moedas não a tirariam daquele estado, não a tirariam dali e tão pouco colocariam dentes em sua boca. Resolvi num impulso sincero e autêntico, com meu portunhol raso, pedir permissão para dar a ela uma abraço.  Com cuidado e delicadeza a abracei e ela então, deixou-se abraçar. Diferente dos pedintes daqui, ela tinha um perfume suave e gostoso. Era uma mulher magra, limpa e não só aceitou o abraço, como deixou sua cabeça cair sobre meu ombro e chorou muito. Procurei não racionalizar aquele momento, afinal eu estava ali para dar e não para ler o que acontecia. Senti seu calor, seu corpo magro e meu ombro molhar. Em determinado momento, ela suspira e  digo ” ficará tudo bem…” Ela arrisca um último cochicho e diz que tem câncer. Se esse dado era verdadeiro não sei. Sei que seu corpo sendo abraçado por mim era extremamente real. Concentrei-me nisso fui embora sem nada a dizer.

    O livro que comprei em seguida falava de um mar de lágrima e, estranha coincidência: Acabava com um econtro e um abraço.

Só agora 

Ao escrever sobre esses meus breves passos

      Para além da fronteira

é que entendi o acaso

Ser o livro a metáfora em concreto estado

E do meu encontro

estar de certa forma,

      na história já narrado.

Montevidéo, 4 de Março. Praça, Teatro, abraço.

Reticências

         

                                                                    I- Mar

     Corta os punhos, a mulher desavisada do triste destino.

    Como uma lenda triste, a mulher arrebenta os dedos na parede em sinal de discórdia consigo mesma. Vive na prisão de um amor sem rumo, um relógio sem ponteiros, uma estrada sem horizonte.

    Um dia a mulher de dedos arrebentados cruzou a linha do horizonte e não voltou. Bebeu água salgada antes de auto-afogar-se no mar; antes de rascunhar seu suicídio de sal.

    A mulher tonta estava com seus punhos serrados logo depois da areia e antes de deitar-se sobre as ondas e deixar-se morrer, algo suave e sutil a derrubou. Avesso ao que ela queria, o mar  cuspiu seu corpo para fora da água e mesmo com pulmões molhados, a mulher de meio pulso se obrigava agora a respirar. Um sopro de vento ancorou sob sua pele quase afogada e ela precisou recobrar os sentidos há pouco levados pelo mar mas devolvidos pelo mesmo. Estava com o corpo frio; quase trêmula. Como um orgasmo ao avesso ela sentiu de repente, a areia a queimar a sua pele. A areia em chamas sob suas costas molhadas fazia com que o frio de quase morte se fundisse com a quentura do sobreviva…

Há de se recobrar os sentidos antes que o último suspiro da alma se afogue…

Há de se encher o caderno de poesia antes que a última metáfora se mova…

Há de se sentar do alto de um morro para olhar o horizonte e assimilar a imensidão do quase silêncio…

Há de se esgueirar pela fresta e espiar a ultima planta para recordar-se da vida.

                                                                                                     II Portais

Feito furacão a mulher invade a chuva com suas malas feitas de recordações aos pedaços. Não havia mais cola para juntar as missangas caídas e espalhadas no chão. – Conte! – disse a mulher nas portas do inferno transformando sua fúria em uma metáfora dentro do bairro pobre e todo alagado.                                                  Naquele dia juntou seus medos e o demônio ficou contando o estrago que a mulher fez na entrada do pesadelo. Dizem que o diabo  arranhou seu ego na saída, quando tentou buscá-la  para queimar-lhe a pele com seu mal ânimo. Naquele dia rompeu as barragens, quebrou os cadeados. Não havia lógica ao sair na chuva e a chuva alagou todos os cantos em torno da mulher cheia de medo corroído de coragem. Ela seguiu sua marola de fé. Já não havia o que colar. Todo rompante de dor no seu peito agora quebrara de vez e ela resolveu, ao seu modo, dar a tudo um rompimento final.

 

O Anjo Caído

Desenho-Geovania Ramos

A expressão “ anjo caído”, ao mesmo tempo que evocava ideias do divino, lembrava da possibilidade da queda.

Nessa história o anjo acordou num sábado e, como de costume, espiou sua protegida trocar de pijama na frente do espelho. Ela gostava de colocar uma peça de algodão branca, desembaraçar os cabelos com os dedos e amarrá-los descontraidamente. Tinha um nariz delicado, uma pele branca. Seus cabelos frisados davam a ela ares de princesa medieval e-longe das batalhas- o anjo tratava de cuidar do seu destino. Ela era sutilmente silenciosa. Silenciava quando estava contemplando as coisas da vida. Em outros momentos ela falava e cantava. O anjo aproveitava esse momento para dar uma descansada, pois quando a moça  “hablava de sus cosas”, era porque estava bem. Naquela tarde já se ia o sol no horizonte da cidade onde ela morava. Ela estava inquieta em seu silêncio, naquele dia cheio de discórdia. Não fumava, mas se fumasse teria acabado com todos cigarros. Roeu as unhas, tentou desenhar, pintar, tecer umas linhas, mas nada tirava dela aquele ruído interno. O anjo desde cedo estava às pressas em torno dela. Já tinha ido aos céus consultar o oráculo, já tinha ido também à horta, buscar um chá de Santa Maria. Já tinha ido atrás de algum ingrediente que  pudesse espalhar na aura da moça para tirar-lhe daquela angústia.

Naquela noite, demasiadamente raivosa e angustiada ela desaguou suas coisas não ditas. Levantou do sofá e, em direção ao homem que amava, despejou nele toda densidade contida no seu silêncio. Assustado e austero, ele ergueu a voz arregalando seus olhos azuis e,  sem seu habitual sorriso, a enfrentou com a face áspera. Aquele era um momento de tempestade. Ela descarregou nele seus raios, trovões, desafiando  aquele  homem a despedir-se de amá-la. Após rompantes de ambos os lados, ele afastou-se, saindo porta afora. Ela sem forças, não o seguiu. Ele precisava calar até que a maré voltasse à calma.

Quando ele saiu ela calou. Reparou que suas águas tinham se agitado além do desejável. Temeu que ele fosse embora para sempre. Nessa hora seu corpo exausto a lembrou que era frágil. Nessa hora olhou em torno de si e reparou nos filtros de sonho que fazia e desejou passar por ali… Depois olhou para a porta com espera. Lembrou que mesmo as grandes embarcações naufragam. Sentiu medo que o homem que amava não voltasse.

Enquanto isso o anjo, já tonto com a tormenta, foi tentar um último voo em torno da moça. Ele tropeça no lustre da sala e cai. Bem em frente a uma mesinha, fica caído com as asas arranhadas. Olha em torno de si e repara um maço de cigarros abandonado. Percebe à sua direita uma garrafa de whisky. Olha a moça quieta quase adormecida. Sem resistir muito, fuma todos os cigarros, bebe a garrafa de whisky e desmaia de cansado. E ficam ali- caídos- os dois.

O homem retorna.  Ao abrir a porta repara na calmaria típica de manhã pós- tempestade.  Acaricia os cabelos frisados daquela que era sua particular princesa medieval, repara na falta dos cigarros na carteira e estranha a garrafa vazia. Observa ao redor e percebe que sobre a mesinha tem um anjo caído, com cigarros amanhecidos nos dedos e a garrafa na mão. Reconhece a dádiva de ver um anjo. Sabia que não há nada de comum em econtrar um no anjo da guarda, mesmo que caído. Poder vê-lo, causava-lhe um encantamento sutil. Extasiado com tamanha arte, o homem tira do bolso uma máquina e arranca do anjo um retrato. Guarda a foto e fica ali mesmo, deitado ao lado de sua moça. Ele sabia que no dia seguinte ela acordaria linda, amarraria os cabelos, colocaria sua camiseta de algodão branca e iria até a janela olhar o tempo. O homem só desejou que aquela chuva passasse como um mar abraçado com o horizonte. Ele mesmo a guardou até o amanhecer do dia.

Conta a história, que o retrato ficou guardado em seu bolso. Contam que o homem-de vez em quando- ainda olha o retrato do anjo,

… só para lembrar das coisas do divino.

Chuva de brinquedo

 

Por: Bárbara Trelha

Era uma vez uma manhã fria…

aquarela

A trilha estava difícil e a neblina fechava a visão. Eu não queria   que aquele trajeto acabasse mas ao mesmo tempo rezava que logo déssemos de cara com acampamento onde todos nos esperavam. Não sei quando comecei a pensar na minha infância, pois muitas coisas rondam a minha cabeça. Eu, toda vez que ando, visito algumas lembranças, redesenho seus desfechos e sempre fiz isso, desde criança.

                                                          …

Era uma tarde quente. Eu e meu irmão brincávamos no quintal de nossa casa. Havia no quintal cerca de seis árvores, algumas de frutas como limão, ameixa, laranja e bergamota. Tinha  também uma roseira torta no muro, presa por um arame para não despencar, um tanque no qual nos banhávamos quando era verão, uma galinha de estimação, andarilhando por aqui e por ali, e um galpão, ao fundo de todo esse lugar. Ainda me lembro do balanço, da terra preta e de um novo manduruva a cada galho da ameixeira. Atrás do galpão, mais ao fundo ainda, havia um prédio de 15 andares. Alto e cheio de janelinhas. Nossos olhos mal conseguiam contar. Minha lembrança é estranhamente silenciosa. Talvez porque eu e meu irmão, além de brincarmos de muitas coisas, tínhamos uma sintonia especial: Nossos pensamentos se conversavam sem que precisássemos falar muito e, como um rio que corre, a gente só brincava…

Naquele dia, em especial, eu andarilhava igual a estimada galinha da família; para lá e para cá. Carioca, nossa galinha, naquela tarde estava quieta.  Mimosa, minha cachorra que tinha uma mancha preta no pelo, me olhava serelepe abanando o rabo. E tudo aconteceu quando eu estava olhando para o chão, observando a grama e os gravetos de sempre. Naquele momento, o instante deu espaço para o inusitado. Achei ali, no meio da grama, um carrinho em miniatura!

Logo que peguei ele na mão, vasculhei a realidade de sua aparição. Mas era isso mesmo: Um pequeno carrinho estranho, novo, colorido, achado no quintal por mim.

-Mano, olha esse carrinho que eu achei!

-Deixa eu ver… Que legal!

Enquanto meu irmão observava surpreso, eu olhei para o mesmo lugar onde eu o encontrara e qual não foi minha surpresa, quando dei de cara com outro carrinho! Olhei para cima, e para os lados e lá estava, de repente, sem muito aviso, outros brinquedos pequenos em miniatura, espalhados pelo chão.

-Mano, olhe tem mais aqui! E ali outro…E outro!!!!!

Enquanto a gente se surpreendia com os achados, ouvimos mais um novo objeto caindo do céu.  Olhamos para cima e lá estavam as nuvens. Como crer naquilo que nos parecia? Eu e meu mano olhamos um para o outro e quase nem respiramos de tanta euforia. Sem combinar, gritamos juntos:

-Chuva de brinquedo!!!!!

E daí em diante foi uma festa só! Pulamos felizes e começamos a juntar todos pequenos brinquedos que caiam no chão. E eles caiam sem parar!!!!

Meu irmão olhou com mais atenção e reparou  um garotinho da janela do décimo terceiro andar do prédio que ficava ao fundo do nosso quintal. Era ele quem arremessava, lá do alto, nossos achados.

Sem diminuir em nada nossa euforia, meu irmão disse:

-Mana, olha lá!

A sensação surreal de uma chuva de brinquedos era excitante e a euforia não mudou em nada quando descobrimos a verdadeira fonte da chuva: O garoto nuvem. Mais uma vez sem combinarmos nada, olhamos um para o outro e, em tom de cumplicidade, gritamos enchendo os pulmões de ar, o mais forte que conseguíamos:

-Joga mais!!! Joga mais!!!

E o garoto jogava enquanto eu e meu mano pulávamos como que celebrando aquela chuva de brinquedos que caía sobre nós.

Após esse dia, toda tarde la estávamos nós dois, esperando nossa chuva sagrada!  A gente puxava o ar bem fundo nos pulmões, olhava para a décima terceira janelinha e começávamos a gritar:

-Amigo!!! Amigo! Amigo…

Ao ouvir nossas vozes, ele quase sempre saía na janela e acenava.

A gente continuava gritando…

-Joga mais! Joga mais…

E o garoto começava a jogar! E lançava os seus brinquedos. Ao cabo de alguns dias, enchemos uma sacola bem grande. Como éramos pequenos, desconfio do tamanho da sacola, pois sabe como é a coisa na lembrança de criança…É, talvez não fosse tão grande. Mas vale o que estou lembrando. Ele lançava tanto os seus brinquedos que ao cabo de alguns dias enchemos uma sacola grande, enorme, infinita.

No final daquela semana, levamos para nosso quarto nossa sacola infinita, orgulhosos do nosso tesouro. Como piratas adentrando o barco com o baú de ouro, ficamos eu e ele em torno da sacola, com nossos olhos arregalados, felizes com os achados na nossa chuva de brinquedos.

Porém, contos de fada não acabam de forma tão fácil. Na nossa história alguém pronto a roubar nosso tesouro apareceu.

Nossa mãe era uma mulher prática. Sem muito tempo para rodeios e para as nossas euforias. Certo dia, passando pelo nosso quarto, percebeu a estranha sacola que tanto nos orgulhava.

-O que é isso aí crianças?

-São os brinquedos que pegamos na chuva mãe….

-Que chuva? Faz uma semana que não chove…

Rimos de nossa mãe por dentro. Nossos olhos se cruzaram e em silêncio nosso pacto mágico de piratas caçadores de tesouros imperou.

– Me digam de onde veio isso.

Naquele momento percebemos que o inimigo não daria trégua. Então, contamos, casuais e desprendidos sobre nosso amigo da janela e sobre a chuva. O relato era repleto da nossa alegria, contávamos cheios de leveza e orgulho.

-Como assim? Que amigo é esse?

– Nosso amigo mãe. Ele mora lá no fundo do quintal.

Aí mesmo que deu um nó na cabeça dela. Uma ruga de espanto e desconfiança surgiu na sua testa. Sua face ficou séria e isso não era presságio de bons ventos. Talvez uma tempestade se aproximasse.

-Me mostrem isso, quero ver de perto do que estão falando.

Levamos nossa mãe ao quintal e apontamos para a janelinha. Depois chamamos nosso amigo que apareceu prontamente e ela entendeu finalmente do que se tratava.

Aliviados, quase felizes de novo, entramos para dentro de casa, cúmplices de mais uma missão. Foi quando ela disse as palavras mais tenebrosas que ela podia ter dito naquele momento:

– Precisamos devolver esses brinquedos pois são do garoto e por sinal, a mãe dele nem deve estar sabendo disso.

E a chuva virou uma temida tempestade. Nosso tesouro querido, nossos dias de chuva de brinquedo arruinados por uma dessas regras estranhas de adultos. Se nosso amigo nos dera aquilo, tudo que nos dera era dele, óbvio, e não de sua mãe. Pra que entregar a ela?

 Eu hoje em dia sempre considero meus filhos donos reais de seus brinquedos. Isso me gera alguns problemas pois os adultos costumam dar presentes condicionados à cuidados especiais ou a usos pré definidos.

” – Olha que linda boneca que você ganhou para brincar… só não vá brincar com ela no barro que vai estragar.”

Regras de adultos as vezes ainda soam estranhas para mim.

Independente da nossa lógica ou da realidade dos fatos, o temível anúncio se cumpriu. Ela anunciou e assim o fez: Levou nossos achados, advindos daquelas chuvaradas no quintal.

Passada meia hora, a sensação era da madrugada avançando em nossas alminhas, agora derrotadas. Entramos nessa atmosfera, insones, esperando a volta daquela que instaurou o fim das chuvas.

Ouvimos o barulho da porta. Era nossa mãe chegando e ela trazia com ela um saco menor. De toda forma, sabíamos que nada nos consolaria.

-Vejam crianças, a mãe deles realmente não sabia de nada. Mas ela quis separar alguns brinquedos para vocês; os que são mais velhinhos … Esses vocês podem ficar de presente.

Ela não entendeu nada! Ela não entendia de aventuras e nem de prêmios de consolação, pois para nós aquele saquinho murcho simbolizava o naufrágio.  Éramos de novo duas crianças normais brincando num quintal, agora árido e seco.

Nem toda história real é um conto de fada. Nossas tardes de chuva de brinquedos secaram.

Na caminhada pela trilha eu podia refazer cada pedaço da lembrança. Meu irmão não estava ali comigo, mas lembrar o trazia para perto de mim. Tudo bem, a aventura permanecia.  A trilha continuava difícil e a neblina baixara. Dei cara com o acampamento onde todos nos esperavam. Começou uma chuva e parei de pensar na minha infância, pois a chuva caindo sempre leva embora os pensamentos que rondam minha cabeça. Prossegui redesenhando o começo, montando a barraca, armando a lona para garantir proteção contra a chuva, mas de alguma forma a chuva ainda me lava. Ainda me leva brinquedos e ainda me trás meu mano de volta.

caminhando na chuva